Friends are not FOOD

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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Adoção : Orestes e Desolo


“Regana era uma mulher solteira funcionária pública de seus mais de cinqüenta anos. O ventre já seco lhe impossibilitara de ter seus  próprios filhos.  Na sua solidão, vivia entre  a cruel dúvida: Adotar uma criança  ou um cachorro para lhe fazer companhia. Falou sobre o assunto com algumas amigas ( que tiveram mais sorte e tiveram filhos) e outras  que como ela não provaram o gostinho da maternidade. As opiniões  se  divergiam, mas a opção  de adotar uma criança foi a mais  aprovada. Alguns dos comentários  foram esses:
“Não vai gastar com um animal, tendo tanta criança  necessitada  precisando de atenção”
“Um animal dura no máximo 15  anos  e vocês ficarão velhos juntos. Você não terá como cuidar dele... a criança cresce e poderá cuidar de você.”
“ Gente é gente, animal é  animal. A vida de uma  pessoa  humana  vale mais do que a vida de um animal. Se pode,  ajude  um ser humano, não um animal irracional.”
Regana adotou uma criança: um menino de cinco anos, olhos vivos, bochechas gordas e rosadas.  Colocou-o em uma escola particular de Irmãs Católicas, na Escolinha de Futebol e na Natação. Deu a ele todo o seu amor que a vontade de ser mãe acumulara ao longo dos anos. Como ele não tinha ainda registro, deu-lhe o  nome  de Orestes.
                              Por essa época, largaram em frente ao seu portão um filhote  de cachorro franzino com falhas no pelo branco com manchas amarelas. Decidida a não adotar o animal porque havia adotado uma criança, Regana  começou a  alimentar  o cão, mas  não  o colocou pra dentro do pátio. Todos os dias ele aparecia para comer e abanar o rabo. Foi se criando pela rua, às vezes acariciado, outras vezes, xingado e chutado, mas sempre  com ânimo para abanar  o rabinho para todos, até para aqueles que lhe faziam mal. Chamava –o de Desolo. 
                           O tempo passou e Orestes, apesar de toda a educação e carinho  entrou no mundo das drogas. Regana, nada percebeu. Com mais de sessenta anos, não conhecia as características  e trejeitos de viciados.
                          Uma tarde de uma dia que começou chorando, nem o pára-brisa do carro deixava visível a rua, Regana foi abordada no estacionamento do supermercado aonde comprava as  bolachas  favoritas  de Orestes e  ração para Desolo.  Percebera que eram 3 elementos encapuzados. A primeira atitude foi correr. Ouviu as conversas deles e reconheceu a voz de um. O peito e o estômago se fundiram num só órgão, apertado, esmagado. Uma facada de decepção cortou seu corpo.
                        - Por que isso, Orestes? Por quê? -Sem responder, o encapuzado engatilha a arma. Em vão tentou correr ate o carro. Por um momento pensa que ele não teria coragem de machucá-la, não depois de tudo. Neste breve momento lembra o seu primeiro dia de aula, as aulas de natação, os campeonatos de futebol... Um estampido seco acompanhado de um queimor nas costas  a fez cair. Deitada no chão, o sangue se espalhando pelo  cinza da calçada, fixa seu olhar no encapuzado que falava aos outros:
      - “Ela guarda tudo o que tem numa gaveta na cabeceira do quarto dentro  de um envelope pardo. Deve ter pouco dinheiro na bolsa. Vamos lá!”
Um dos outros corre e pega a bolsa já molhada de sangue  que ela levava junto ao ombro. Ao desvencilhar a bolsa do corpo caído ainda desfere dois chutes. O segundo ela já nem sente mais. Aquele encapuzado cuja voz reconhecera para em sua frente e se mostra. Seu rosto impassível, não fala de qualquer sentimento.  Ela nem se assusta mais, já sem forças de fixar os olhos em Orestes ali na sua frente.
Roubá-la por quê? Acaso tudo o que tem não será dele quando morrer? Acaso ele não sabe que é seu único herdeiro, ficaria com a casa e com algum dinheiro que tem guardado...
Esse foi seu último pensamento. Entrava no mundo dos mortos com a imagem dele. Seu derradeiro suspiro fora ali, no estacionamento do supermercado, na frente daquele  que criou como filho. Filho do seu carinho.
O enterro no dia seguinte foi acompanhado de poucas pessoas. Sem família, poucos amigos e alguns vizinhos. Regana teve uma cerimônia simples. Orestes e os outros dois já estavam detidos, mas por serem menores de idade logo estariam soltos. O morador da frente  o flagrara com mais dois rapazes vasculhando  a casa  no dia da morte e a policia  os identificara.
Alguém porem acompanhou o féretro de longe, devagarzinho. O velho cão Desolo quietinho entendendo tudo ia atrás  do grupo que acompanhava o caixão até a cova.

A ultima morada de Regana teve a companhia solitária de Desolo que definhou ali , sozinho, sobre a lápide até a  sua morte.”

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